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Duas queixas-crime no DIAP de Cascais · 07 e 10 de setembro de 2026

Do tatami ao DIAP:
a academia onde só o dinheiro fazia exercício.

Vários investidores e um senhorio apresentaram queixa contra um empresário do sector das artes marciais. Alegam que entregaram dinheiro para abrir e manter academias, mas as rendas ficaram por pagar e os fundos não foram devolvidos. A uma das queixas junta-se a retenção de um todo-o-terreno financiado por uma sociedade terceira, entregue em comodato e não restituído após notificação. Esta página reúne apenas o que consta das denúncias e da reportagem publicada.

Presunção de inocência. O denunciado beneficia da presunção de inocência em Portugal. Até à data não existe decisão judicial portuguesa sobre os factos denunciados. Cabe às autoridades apurar se se trata de conflitos comerciais distintos ou de um padrão de actuação.

Aviso a quem procura academia

Ops… acho que não vais encontrar o que procuras.

Se vieste à procura de uma academia para aprender a lutar ou para relaxar, vais ficar desapontado. O que há aqui é uma boa história, mas não é sobre um senhorio a quem não pagaram a renda. Segundo as denúncias, o negócio nunca foram as aulas: eram os sócios. Cobrar caução e despesas que nunca existiram. Receber todos os meses o dinheiro para pagar o arrendamento e ficar com ele. Comprometer o investimento desde o primeiro dia já sabendo que haveria despejo e que o sócio nunca veria o retorno. (E, sim, há também um cadastro criminal no Brasil.) Se queres aprender luta, procura outra academia: a principal fonte de renda aqui nunca foram as aulas. Se queres perceber como funciona o golpe, acompanha.

Banda desenhada · 10 vinhetas

Como montar uma academia sem pagar a renda

Personagem de cartoon genérica, dramatização ilustrada. Cada legenda repete o que consta das denúncias.
EU + FAMOSOEU + FAMOSOEU + FAMOSO *POSE*
“Olha eu com ele. E com ela. E com aquele também.”
01
O aquecimento Primeiro vem a credibilidade. Mestre, empresário e personal trainer, com contactos com figuras conhecidas nas redes sociais. Segundo os denunciantes, a imagem fazia o trabalho pesado.
CONTRATO €€€CONTAPESSOAL
“Entras como sócio. São só 20 mil para rendas e caução.”
02
A pega Segundo a denúncia, os €20 000 foram depositados em contas em nome dele e da mulher. A conta da academia ficou de fora.
ACADEMIA · ABERTA RENDA: €0
“E a renda deste mês? E a do anterior? E a…”
03
Treino de resistência Mais de €20 000 em rendas por receber. Quem mostrou mais resistência foi o senhorio. A academia, essa, continuava aberta.
€45KEQUIP.
“Este vai ser o maior. Só faltam uns 45 mil em equipamento.”
04
Novo round, novo tatami Outro projecto, ainda em obras, com cerca de €45 000 investidos. E as rendas? O mesmo problema.
€50 000ENVIADO JULAGOSETOUTPRESTAÇÕES:
“Devolvo tudo, todos os meses. Palavra de mestre.”
05
A finta Em junho, €50 000 foram para uma conta pessoal, com promessa de devolução mensal. Segundo a denúncia, o calendário avançou e os pagamentos não.
DIAP · CASCAIS CONTRATOSCOMPROVATIVOSMENSAGENSTRANSFERÊNCIASMAIS CONTRATOS?
“Senha 47. Queixa-crime, balcão 3.”
06
Decisão dos juízes (pendente) Setembro, Cascais. Os investidores trocaram o tatami pelo DIAP. O combate agora é noutro ringue e ainda não tem vencedor.
FAIXA PRETACAMPEÃO**de quê? não diz €€€
“A vida não foi fácil para mim… mas olha os meus diplomas.”
07
A história triste Quando o senhorio começa a falar em despejo, aparece mais um investidor. Os denunciantes descrevem sempre a mesma receita: uma história comovente, credenciais emolduradas e um pedido de capital “só para aguentar”.
€€€DÍVIDAANTIGA(continua cá)SÓCIO Nº ?
“Bem-vindo, sócio! O anterior? Saiu… sem aviso prévio.”
08
A roda do hamster O dinheiro novo abre o espaço seguinte e a dívida antiga fica onde estava. Segundo os denunciantes, quem tem muito dinheiro prefere esquecer e quem tem pouco não tem como lutar. Entretanto, a roda continua a girar.
07:00 · AULAROUBO MAJORADOTJPR · 2022CONDENADO
“Mas eu não sou violento!”
09
Dupla jornada De quimono às 7h, a ensinar respeito. No Brasil, com cadastro: condenado por roubo majorado, sem mais recurso desde 2022. “Não é violento”, dizem. Só que roubo, por definição legal, é tirar algo a alguém com violência ou grave ameaça. Majorado quer dizer que a lei ainda o agrava.
NOTIFICAÇÃO24h€530/mês???COMODATO*SHRUG*
“Emprestado? Eu??”
10
O carro do mestre Um todo-o-terreno financiado por uma sociedade terceira é entregue ao denunciado em comodato. Notificado para devolver em 24 horas, ele acusa receção, pede uma reunião e o carro fica por aí. Nova queixa: abuso de confiança.
Fim da trilha · o dossier está no DIAP
O mapa do dinheiro

A roda que gira sozinha

NOVOINVESTIDORCONTASPESSOAISRENDA PORPAGARNOVOESPAÇO GIRA……E GIRA
A · Entrada Novo investidor Parceria, obra ou empréstimo.
B · Destino → Contas pessoais Em nome dele e da mulher, segundo as denúncias.
C · Fuga → Renda por pagar O senhorio espera. A academia continua aberta.
D · Recomeço ↺ Novo espaço Os denunciantes suspeitam de que a volta já tinha sido dada antes. Regressa a A.
€115 000entregues por investidores (alegado)
> €20 000em rendas a um senhorio
4episódios denunciados, incluindo o veículo
0decisões judiciais em Portugal, por enquanto

Quanto custa sair da parceria?

Segundo um dos contratos: €5 000 por sair mais cedo, mais €5 000 sem aviso prévio, e €500 por cada aluno aliciado durante 12 meses. Os denunciantes falam em mais de 100 alunos. E há ainda os €20 000 da entrada, cuja devolução é reclamada.

Devolução do investimento inicial (reclamado)€20 000
Saída antecipada€5 000
Sem aviso prévio€5 000
Alunos × €500{{ multa }}
Total{{ total }}
Registos públicos · Brasil (consulta 10/09/2026)

O cartel que existe mesmo

De combates em bases públicas, não encontrámos registo. De processos judiciais, há. Os números vêm de um relatório de bases públicas (tribunais, TST, CNJ, Receita Federal) feito ao CPF da personagem real por trás desta história.

Cartel oficial 16 processos judiciais 9 como réu, 4 como autor, 3 noutra condição
3criminaisRoubo majorado, TJPR Curitiba (2021-2022) · condenado
7trabalhistas6 como réu, sobretudo em Cascavel, 2014-2016. Inclui um acidente de trabalho.
3cíveis como réuTítulos de crédito, enriquecimento sem causa, dano moral
SIMdevedor trabalhistaCertidão do TST de 10/09/2026: “constam débitos”
Veredicto · Brasil Condenado por roubo majorado Tribunal de Justiça do Paraná, Curitiba. Condenação transitada em julgado em julho de 2022, ou seja, já sem recurso possível.
O que é “roubo majorado”?
Roubo ≠ furtoFurto é tirar algo às escondidas. Roubo é tirar algo a alguém com violência ou grave ameaça (art. 157 do Código Penal brasileiro). Pena base: 4 a 10 anos.
“Majorado”Quer dizer que houve pelo menos uma circunstância agravante prevista na lei. Por exemplo: uso de arma, mais de uma pessoa a cometer o crime ou vítima privada de liberdade. Nesses casos, a pena sobe entre um terço e metade, ou até dois terços se houver arma de fogo.
Em português de Portugal, seria o equivalente a “roubo qualificado”. Pois, “não é violento”…

Um padrão antigo? Entre 2014 e 2016, antigos trabalhadores processaram-no várias vezes no Paraná. Os pedidos iam de R$26 000 a R$37 000 cada. Em 2026, a certidão do TST continua a dizer “constam débitos”. Pelos vistos, pagar a quem trabalha para ele já era um desafio antes das rendas.

Em nome do rigor: na mesma consulta, o Banco Nacional de Mandados de Prisão (CNJ) não mostra mandados em aberto. Os débitos fiscais federais estão a zero e não há sanções. Também não aparece nenhuma notícia negativa na imprensa brasileira.

Montantes alegados Fonte: queixas no DIAP
N.ºEpisódioValorO que é alegado
01Parceria numa academia em funcionamento€20 000Dinheiro destinado a rendas e caução, depositado em contas do denunciado e da mulher. As rendas não terão sido pagas.
02Academia ainda em obras≈ €45 000Investido em construção e equipamento. Problemas com o pagamento das rendas e com o destino do dinheiro.
03Transferência de uma investidora€50 000Transferido em junho para uma conta pessoal, com acordo de devolução em prestações mensais. Os pagamentos não terão sido feitos.
04Rendas em dívida a um senhorio> €20 000O proprietário prepara medidas para recuperar o imóvel. Entretanto, a academia continua aberta.
05Retenção de um veículo≈ €530/mêsTodo-o-terreno financiado por uma sociedade terceira, alheia às academias, e entregue ao denunciado em comodato. Não restituído após notificação de 24 horas; nova queixa de abuso de confiança.

Valores alegados pelos denunciantes, ainda não confirmados judicialmente. Foram entregues contratos, comprovativos de transferências e comunicações.

Passo 1
Credibilidade
Apresentação como mestre de artes marciais e personal trainer, com imagem de sucesso e contactos com figuras conhecidas nas redes sociais.
Passo 2
Proposta de parceria
Um negócio com potencial e um pedido de capital para arrancar, pago em contas em nome próprio e da mulher.
Passo 3
Rendas por pagar
Os senhorios ficam sem receber enquanto o espaço continua a funcionar.
Passo 4
Novo projecto
Os denunciantes suspeitam que o padrão se tenha repetido em negócios anteriores, com outras academias e outros parceiros.

Penalizações por saída

Num dos contratos, sair mais cedo da parceria custava €5 000, mais outros €5 000 se o aviso prévio não fosse cumprido. Também ficava proibido aliciar alunos durante 12 meses, com uma multa de €500 por aluno.

Os denunciantes afirmam que mais de 100 alunos terão sido aliciados depois. Se a cláusula for aplicada, isso representaria cerca de €50 000.

O carro que quase saía em nome errado

Antes do episódio do veículo, segundo a denúncia, houve uma tentativa de financiar um carro de gama alta usando documentação de outra academia no Estoril, sem conhecimento dos responsáveis dessa academia. A tentativa falhou.

O financiamento veio depois por outra via, uma sociedade terceira, alheia ao litígio, e o carro acabou entregue ao denunciado em comodato. Terminada a relação comercial, os responsáveis pediram a devolução. Segundo a denúncia, o carro não voltou. → ver secção seguinte

O carro que não voltou à garagem

A segunda queixa, entregue no DIAP de Cascais em 10 de setembro de 2026, já não fala em rendas. Fala num todo-o-terreno que uma sociedade terceira, alheia ao litígio das academias, financiou, entregou ao denunciado em comodato e não viu voltar. Segundo a denúncia, o denunciado foi notificado para o devolver em 24 horas, confirmou ter recebido a notificação, pediu uma reunião em vez da entrega e ficou-se por aí.

Ficha do veículo Anónima · sem matrícula
CategoriaTodo-o-terreno de gama alta · 2019
ProprietárioUma sociedade terceira, alheia às academias
FinanciamentoCrédito automóvel com reserva de propriedade
Mensalidade≈ €530/mês
Quem pagaA sociedade proprietária (ainda em curso)
Quem usaO denunciado, há cerca de 4 meses
SituaçãoNão devolvido após notificação

Sem matrícula, NIF, morada ou números de contrato. Esta página não publica dados pessoais.

Comodato → notificação → silêncio
~MaioO veículo é entregue ao denunciado para uso pessoal e profissional, sem contrapartida. Título: comodato.
08/09Notificação extrajudicial do mandatário dos denunciantes: autorização cancelada, 24 horas para restituir com chaves e documentos.
09/09O denunciado acusa receção e pede a marcação de uma reunião. Não restitui o veículo.
10/09Nova queixa-crime no DIAP de Cascais: abuso de confiança. Pedida a conexão com a queixa de 07/09.
A confissão que veio antes

Na mesma reunião de 08/09, segundo os denunciantes, o denunciado terá confessado verbalmente não ter pago as rendas ao senhorio, apesar de ter recebido os valores para esse fim. A denúncia sustenta que esta confissão reforça a queixa de 07/09.

O que a queixa pede ao Ministério Público
  • Constituir o denunciado arguido.
  • Busca e apreensão do veículo na residência ou na academia, com entrega à proprietária.
  • Medidas de coação por perigo de fuga: termo de identidade agravado, entrega de documento de viagem e proibição de se ausentar do território.
  • Ofício à AIMA sobre o título de residência do denunciado.
  • Conexão com a queixa de 07/09 (mesma pessoa, mesmo padrão).
  • Acusação final por abuso de confiança (art. 205.º do Código Penal).
Por que se invoca "perigo de fuga"

A queixa alega: dívidas perante a Autoridade Tributária e a Segurança Social em Portugal; processos judiciais em curso no Brasil; título de residência em Portugal prestes a caducar; e ausência de vínculos patrimoniais estáveis: nem o carro é dele. Por isso, sustenta que há risco de o bem ser ocultado, alienado ou danificado e de o denunciado se ausentar.

Enquadramento jurídico (alegado)

Abuso de confiança (art. 205.º do Código Penal): receber coisa móvel alheia por título não translativo da propriedade e dela dispor como se fosse própria. A denúncia equaciona ainda a forma agravada e o crime continuado (art. 30.º, n.º 2), por entender que o episódio segue o mesmo padrão da queixa de 07/09.

Jul 2022No Brasil, torna-se definitiva uma condenação por roubo majorado (Paraná). Diz respeito a factos ocorridos no Brasil e não prova, por si só, as acusações feitas em Portugal.
~Maio 2026Um todo-o-terreno financiado por uma sociedade terceira é entregue ao denunciado em comodato.
Jun 2026Uma investidora transfere €50 000 para uma conta pessoal, com acordo de devolução em prestações.
08/09/2026Notificação extrajudicial: 24 horas para devolver o veículo. Reunião em que, segundo os denunciantes, o denunciado confessa não ter pago as rendas ao senhorio.
10/09/2026Segunda queixa-crime no DIAP de Cascais (abuso de confiança do veículo), com pedidos de busca e apreensão e de conexão com a queixa de 07/09.
Crónica · Opinião

O que é ser mestre?

Um texto de opinião. Os factos estão nas secções acima.

Nas artes marciais, a primeira coisa que se ensina não é um golpe, é o respeito. Pelo parceiro, pelo tatami e por quem confia em nós.

Então pergunta-se: ser mestre é acordar às sete para dar aula, pagar a renda e pagar a quem trabalha contigo? Ou é ter uma condenação por roubo majorado, uma certidão do TST que diz “constam débitos” e, segundo quem já foi sócio, uma fila de parceiros à espera de reaver o dinheiro?

A faixa preta não é um adereço de Instagram. Quem a usa aceita um código de conduta e responde perante uma federação. E quem a anuncia sem a ter responde por publicidade enganosa. Em qualquer dos casos, a faixa não protege ninguém de ter de prestar contas.

Se alguém te está a propor sociedade numa academia neste momento, lê esta página até ao fim antes de transferires um euro.

Em investigaçãoSem decisão judicial em Portugal

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